Carlos Alberto de Nóbrega, internado no Hospital Sírio-Libanês em São Paulo desde a semana passada, foi diagnosticado com o Coxsackie tipo 2, que agravou sua insuficiência cardíaca pré-existente. Essa descompensação resultou em bradicardia, caracterizada por um batimento cardíaco mais lento, além de outras arritmias.
A cirurgia para a implantação de um marcapasso, que estava agendada para a segunda-feira (19), foi transferida para terça-feira (20). A assessoria do apresentador informou que ele se encontra estável e sem complicações. Sua esposa, Renata de Nóbrega, que é médica, também apresentou sintomas da infecção, mas não necessitou de internação.
O que é o Coxsackie?
Os coxsackievírus pertencem ao grupo dos enterovírus, o mesmo que causa poliomielite, e são divididos em dois subgrupos: A e B. A síndrome mão-pé-boca, uma doença altamente contagiosa provocada pelo Coxsackie, afeta principalmente crianças pequenas, de acordo com a Sociedade Brasileira de Pediatria.
- O subgrupo A contém 23 tipos e está relacionado a essa síndrome.
- O subgrupo B, por sua vez, possui seis tipos e é mais frequentemente associado a complicações em órgãos internos, como coração, pâncreas, fígado e sistema nervoso.
O tipo 2 é encontrado em ambos os subgrupos, mas não há informações disponíveis que esclareçam a qual deles pertence o vírus que afetou o apresentador.
Este vírus é bastante comum e um estudo na Itália revelou que aproximadamente 70% das pessoas analisadas apresentaram sinais de infecção anterior. A maioria dos casos se manifesta como resfriados, diarreias ou febres leves, frequentemente sem que a origem seja identificada.
O contágio ocorre principalmente pelo contato com fezes, e o vírus pode ser eliminado nas fezes por semanas após a infecção, mesmo quando os sintomas já desapareceram.
Além disso, o vírus também é transmitido por gotículas respiratórias e saliva, podendo permanecer em superfícies e objetos, facilitando sua disseminação em lares, creches e escolas.
Como o vírus afeta o coração?
A trajetória do vírus no organismo ajuda a compreender como uma infecção leve pode se transformar em um problema cardíaco. O vírus entra pela boca, se reproduz no intestino e, em seguida, vai para a corrente sanguínea. Ao entrar na circulação, ele se liga a células que possuem receptores específicos em sua superfície.
No coração, esses receptores estão concentrados nas junções entre as células musculares, que são os locais onde os sinais elétricos que regulam os batimentos cardíacos são transmitidos. O cirurgião cardiovascular Ricardo Kazunori, da BP – Beneficência Portuguesa de São Paulo, explica esse processo.
“O vírus danifica a célula diretamente, e a resposta do sistema imunológico, ao tentar combatê-lo, pode resultar em inflamação adicional. Isso pode levar à miocardite, que é a inflamação do músculo cardíaco. Quando essa inflamação afeta o sistema elétrico, o sinal que controla o ritmo cardíaco pode se tornar lento ou ser interrompido, causando a desaceleração do coração”, detalha.
Na maioria dos casos de miocardite viral, esses problemas de condução são temporários. No entanto, existem relatos raros na literatura médica de casos em que o bloqueio se tornou permanente, necessitando de um marcapasso definitivo, inclusive após infecções por Coxsackie B2.
O marcapasso é um dispositivo que assume a função de emitir sinais elétricos quando o coração não consegue fazê-lo adequadamente.
Quando a infecção torna-se grave
Recém-nascidos, indivíduos com sistema imunológico comprometido e pacientes com condições prévias cardíacas ou neurológicas estão entre os mais suscetíveis a complicações, conforme uma revisão científica atualizada em julho e publicada pela plataforma StatPearls. A insuficiência cardíaca, condição em que o coração bombeia de forma menos eficiente, reduz a capacidade do órgão de lidar com inflamações.
Sintomas como dor no peito, falta de ar, palpitações e febre persistente requerem avaliação médica imediata. O mesmo se aplica a dores de cabeça intensas acompanhadas de rigidez no pescoço, confusão mental e convulsões, que podem indicar comprometimento do sistema nervoso.
Em bebês, febre associada a dificuldades para mamar, sonolência excessiva ou irritabilidade exige atenção médica imediata.
O vírus também se liga ao pâncreas, e pesquisas estão em andamento para investigar se infecções persistentes podem estar relacionadas ao desenvolvimento do diabetes tipo 1, uma hipótese que ainda está sendo estudada.
Nos casos leves, o diagnóstico é baseado nos sintomas e não requer exames adicionais. Já em situações graves, atípicas ou em recém-nascidos e pessoas com imunidade baixa, os médicos podem solicitar testes que detectam o material genético do vírus no sangue, no líquor (líquido que envolve o cérebro e a medula) ou em amostras do coração.
Sem tratamento antiviral específico
Não há medicamentos que eliminem o coxsackievírus, assim como não existe vacina disponível. O tratamento foca em aliviar os sintomas e apoiar os órgãos afetados: hidratação e medicamentos para febre e dor nos casos leves; monitoramento cardíaco e medicamentos para insuficiência cardíaca em situações de miocardite; suporte mecânico à circulação nas formas mais graves. Quando há problemas de ritmo, o marcapasso corrige a arritmia, mas não atua sobre o vírus.
A prevenção se baseia em práticas simples.
Lavar as mãos com água e sabão, especialmente após trocar fraldas, usar o banheiro e antes de preparar ou consumir alimentos, é a medida mais eficaz. A limpeza de superfícies e objetos frequentemente tocados, evitar compartilhar utensílios e itens pessoais durante a doença, e manter uma higiene rigorosa durante a gravidez, pois a mãe pode transmitir o vírus ao bebê, são cuidados adicionais.
No caso de Carlos Alberto de Nóbrega, a infecção agravou uma condição cardíaca já fragilizada, e a cirurgia agendada para terça-feira (20) visa corrigir a irregularidade do ritmo causada por essa combinação.





